Porque a humanidade deve deixar de consumir carne

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Os grandes impactos resultantes da produção de carne no mundo são evidentes mesmo quando se pesquisa superficialmente sobre o assunto, e mesmo que muitos não queiram aceitar, mudar nossos hábitos pode ser algo que definirá o futuro de nossa espécie. Descubra porque a humanidade deve deixar de consumir carne.

Fornecer alimentos para a crescente população do mundo em quantidade e qualidade suficiente, enquanto, ao mesmo tempo, os ecossistemas naturais são protegidos, é um dos maiores desafios da nossa sociedade. Vários relatórios e pesquisas nas últimas duas décadas têm revelado o grande impacto dos sistemas de produção agrícolas sobre o ambiente: a partir de problemas locais, tais como o desmatamento e a degradação das bacias hidrográficas, aos desafios globais, tais como o aquecimento e a perda da biodiversidade global.

Este post tentará contar um pouco sobre como o aumento exponencial da produção e consumo de carne durante o último meio século, está intimamente relacionado com os principais problemas ambientais que enfrentamos, e como a continuação desta tendência significará um fracasso dos esforços globais de sustentabilidade por ser um importante fator de degradação dos ecossistemas que fornecem serviços.

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Para começar é preciso esclarecer que, quando falamos de alimentação, geralmente, damos importância para o que nós gostamos. Os alimentos que incorporamos e a culinária por atrás deste processo respondem a contextos culturais. É evidente que o analisamos a partir de uma perspectiva antropológica: a comida era (e é) um verdadeiro reflexo da geografia, clima e história de uma sociedade. Estes padrões alimentares permaneceram mais ou menos constante ao longo do tempo graças à transmissão de família e conhecimento social através de sucessivas gerações.

No entanto, há pouco menos de 30 anos, um grupo de nutricionistas alemães fizeram uma contribuição fundamental que mudaria a forma como vemos a produção de alimentos. Eles cunharam o termo Ecologia da Nutrição para definir uma atividade científica interdisciplinar que vincula a sustentabilidade aos sistemas de produção alimentar.

A partir disso, a FAO (Organização para Agricultura e Alimentação das Nações Unidas) introduziu pela primeira vez o termo “dietas sustentáveis” para definir “dietas com baixo impacto ambiental que contribuem para a segurança alimentar e nutricional e a vida saudável para as gerações presentes e futuras. As dietas sustentáveis ​​fomentam a proteção e o respeito da biodiversidade e dos ecossistemas e são culturalmente aceitáveis, economicamente justas, acessíveis, nutricionalmente adequadas, seguras e saudáveis, e permitir a otimização dos recursos naturais e humanos “.

[Post exclusivo Sede Insana]

Assim sucessivas investigações têm mostrado que dietas baseadas em produtos de origem animal (carne, leite e ovos), não andam de mãos dadas com a sustentabilidade quando analisada pela Ecologia de Nutrição e tampouco entram na classificação de dietas sustentáveis ​​da FAO.

E por quê?

Bem, porque a produção (e consumo) de alimentos de origem animal está fortemente relacionada com a deterioração da saúde pública, a insegurança alimentar e as principais questões ambientais do momento: Desmatamento, erosão do solo, degradação das bacias hidrográficas, redução da biodiversidade, aquecimento global e a escassez de água sem poluição para o uso.

Parece muito? Aqui estão alguns dados para que entenda o que queremos dizer.

Primeiro, devemos entender que: Para ter carne, ovos e leite precisamos animais como vacas, cabras, galinhas e frangos, ovelhas, cavalos, porcos, etc. A produção desses alimentos e a criação de animais para este fim são atividades que se enquadram dentro de um sistema chamado setor da pecuária ou de animais, que por sua vez faz parte de um sistema maior ainda chamado setor agrícola (incluindo também a agricultura). A criação destes animais (1 bilhão), obviamente, requer insumos para atender às suas necessidades, porque, como qualquer ser biológico eles precisam de comida e água para seu crescimento e desenvolvimento, entre outros insumos.

Isso não seria um problema tão grande se os níveis de consumo de carne não fossem tão altos. Em 1960, a produção de carne em todo o mundo era de cerca de 50 milhões de toneladas e o consumo por pessoa por ano era de cerca de 17 kg, mas em 2013 a produção mundial de carne foi de cerca de 308,3 milhões de toneladas e o consumo anual per capita triplicou, atingindo 44 kg.

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Gráfico que mostra o aumento exponencial do consumo de carne ao longo dos últimos 50 anos.

Conforme já foi citado, produzir animais requer alguns insumos, entre eles alimento. Para alimentar os animais e produzir carne a partir deles podemos usar três maneiras básicas.

1) Com base em pastagens. É o que é conhecido como pastoreio, onde os animais estão soltos no campo comendo as “ervas daninhas”.

2) Com base nos grãos / cereais. Mais conhecida como forragem, são os alimentos básicos para a produção industrial.

3) A alimentação mista. Aqui os animais alternam de alimentação entre pastagem e consumo de grãos.

Como há muitos animais a serem alimentados, em 2013, foi usado como forragem 37% dos grãos produzidos em todo o mundo. E não esqueçamos da soja, uma vez que é um dos principais componentes da alimentação animal: 97% do farelo de soja produzido no mundo é utilizado como alimento para animais.

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Para se ter uma ideia, se a tendência do consumo de carne continuar a aumentar, até 2050, estima-se que será preciso produzir 1,113 bilhões de toneladas de grãos para alimentar os animais.

É por isso que usamos 1/3 de toda a terra arável no mundo para a produção de forragem. Mas isso só contando os animais que consomem grãos, já que para alimentar o gado através de pastos se exige 2/3 de todas as terras agrícolas no mundo. Ou seja, solo fértil.

Não é de se estranhar que alguns pesquisadores estimem que entre 26% e 45% da superfície do mundo é ocupada por sistemas pecuários.

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Os países que são produtores de carne e grãos são os locais onde o avanço da fronteira agrícola é maior e, portanto, são as áreas mais afetadas pelo desmatamento. Por exemplo, na América Latina quase todas as terras desmatadas tornaram-se pasto para criação de gado e na Amazônia entre 60% e 84% da área desmatada era destina a criar pastagens para a produção de carne. Isto corrobora com o fato de que 95% da pecuária brasileira é criada em pastagens.

Na América Central, a área de floresta diminuiu em quase 40% ao longo das últimas quatro décadas, ao mesmo tempo que aumentaram a superfície das pastagens, cabeças de gado e culturas forrageiras.

O ecossistema Gran Chaco, o segundo maior da América do Sul, teve um desmatamento maior que o da Amazônia no período 2000-2012, devido ao avanço da fronteira agrícola, tanto para a produção de pastagens quanto para a produção de culturas para alimentação animal.

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Outro dos recursos de que necessitam os animais para crescer é a água.

Quanta água pode tomar um animal? Pouca, mas não é este o ponto.

Se levarmos em conta não só a água que os animais precisam para beber, mas também a água necessária para a limpeza de unidades de produção, limpeza de animais, instalações de refrigeração dos animais e seus produtos (leite), para remover resíduos e, sobretudo, a água para as culturas de alimentação, a exigência de água doce para produzir animais é de cerca de 2000-3000 milhões de km3 / ano (sem levar em conta a água da chuva).

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Provavelmente você não deve imaginar quanta água é, mas para lhe dar uma ideia, toda a água doce que é extraída anualmente em todo o mundo a partir de rios, aquíferos, lagos e outras fontes de água doce de fácil acesso é 3.900 milhões de km3. Ou seja, para produzir carne, gastamos mais da metade da água doce de fácil acesso.

Por esta razão, o gasto de água para produzir produtos de origem animal é maior do que qualquer produto de origem vegetal com o mesmo equivalente nutritivo.

Mas ela não é só usada, mas também contaminada. Animais produzem enormes quantidades de excrementos que são despejados nos cursos de água, constituindo vetores de organismos zoonóticos e parasitas multicelulares de relevância para a saúde humana que podem atingir as águas subterrâneas através de vazamentos no solo. Além disso, a pecuária utiliza a maioria dos antibióticos vendidos nos Estados Unidos (> 70%) e é considerado como um dos grandes responsáveis pela geração de bactérias resistentes.

Algo que particularmente deveria chamar a nossa atenção para a água, é sua geração. As bacias hidrográficas são as áreas que representam um sistema de drenagem natural de um território através de um rio ou córrego e a maioria das cidades do mundo são abastecidas com água doce por este mecanismo.

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Quando os animais pastam, eliminam a vegetação que protege o solo enquanto exercem uma ação mecânica com os cascos causando uma compactação mecânica do solo (o esmagam). Isso faz com que o solo perca a porosidade e capacidade de reter água, causando a saturação prematura e formação de fluxos de superfície que acabam corroendo o solo e aumentando a frequência das inundações (especialmente em áreas montanhosas). Esse problema causa uma perturbação nas bacias hidrográficas e, portanto, uma interrupção dos serviços prestados por estas: fornecer água em épocas de seca.

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Pegadas dos rebanhos de animais causam a compactação do solo e a saturação prematura, alterando o processo de filtração.

Você pode dizer:
“Mas sempre houve animais pastando, é natural…”.

Bem, de certa forma, é verdade. Embora essas mudanças sejam mais prováveis ​​em áreas onde poucos herbívoros evoluíram, e alguns autores sugerem que muitos animais pastando (altas cargas) pode ser prejudicial mesmo em ecossistemas em que evoluíram herbívoros, talvez por causa da troca do tipo de animal .

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Imagem mostrando altos níveis de degradação do solo(rochoso e quase nenhuma terra), uma vez que esta área sofreu com a exploração do gado em altas cargas.

E sobre o aquecimento global?

De acordo com diferentes autores, a parcela do gado na emissão total dos gases de efeito estufa varia entre 10-25%. Isso ocorre porque se liberam gases de efeito estufa durante todas as fases da produção de carne: (a) a fermentação entérica produz metano, (b) fertilizar os campos onde a cultura é produzida produz óxido nitroso e (c) transformação de terras para pastagem ou culturas forrageiras produz dióxido de carbono.

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“Está tudo bem. Talvez sim … Mas e sobre a saúde? A carne é necessária para o corpo “, é algo que o leitor pode pensar.

A resposta a essa pergunta é um sonoro NÃO. Estudos nutricionais nas últimas décadas têm demonstrado que os alimentos de origem animal não são necessários e que até podem contribuir para piorar o estado geral da saúde. As dietas vegetarianas demonstraram-se como as mais adequadas para qualquer fase de crescimento (gravidez, infância, adolescência, idade adulta e velhice, mesmo para atletas), e podem até mesmo trazer grandes benefícios para a saúde.

As afirmações anteriores não são suposições, mas sim o fruto de árdua pesquisa em ciências básicas, clínicas e epidemiológicos que foram feitas ao longo de 50 anos na área e o consenso científico das principais instituições de nutrição no mundo.

Algumas questões sobre as dietas vegetarianas:

Existe dificuldade para obter ferro? >>> Não.
Existem problemas com as proteínas? >>> Não.
Existem problemas com ácidos graxos essenciais? >>> Não.
Existem problemas com a vitamina B12? >>> Sim. Todos os vegetarianos devem tomar suplementos de vitamina B12 ou, pelo menos, consumir alimentos enriquecidos com ela.

Este é o ponto onde nós temos um conflito interessante: Os costumes e os valores que deram identidade à cultura ameaçam a sustentabilidade e existência da nossa civilização. Devemos envolver-nos em um debate e chamar para a reflexão se quisermos um futuro de acordo com nossos ideais, mesmo que isso nos leve a fazer algumas mudanças nos hábitos alimentares com os quais nos identificamos fortemente. No fim, estamos falando de melhorar a nossa qualidade de vida e aumentar nossas chances de sobrevivência a longo prazo neste navio azul que todos nós compartilhamos.

Isso pode incomodar muitos, e fazer com que as pessoas aceitam o fato de que a produção de carne é insustentável e que os costumes devem mudar para formas mais benéficas, é um grande desafio, mas é algo que, mais cedo ou mais tarde, deverá ser considerado pela humanidade, caso ela queira ter um futuro, é claro.

Caso queira entender mais sobre o assunto, assista o documentário abaixo.

Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade

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