5 razões pelas quais a Alemanha estava destinada a perder a guerra

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A Alemanha poderia ter vencido a Segunda Guerra Mundial? Isso pode soar pouco realista, mas uma análise econômica do país nos permite perceber que o destino do mesmo estava traçado.

A Alemanha, sendo o país causador e o maior responsável pela Segunda Guerra Mundial, angaria até hoje muitos admiradores de suas capacidades e atuação no conflito, e segundo alguns, esta poderia até mesmo “ter vencido a guerra”. Se você acha interessante tal perspectiva, pode assistir a série “The Man in the High Castle“, ambientada em um mundo onde a Alemanha nazista e o Japão venceram o conflito.

No entanto, ao analisarmos os fatos, esta narrativa revela-se pouco factível, principalmente do ponto de vista econômico, perspectiva pela qual analisaremos o conflito. Para tal, utilizaremos a análise contida no livro “O Preço da Destruição” do historiador econômico Adam Tooze, cuja leitura recomendamos fortemente.

1.- A fragilidade da economia alemã

Apesar de ser uma das maiores economias do mundo em sua época, a Alemanha, cuja moeda havia acabado de ser estabilizada por conta de um doloroso processo de hiperinflação, esteve durante grande parte da década de 1930 enfrentando graves problemas para obter divisas externas para pagar suas importações de matérias-primas e alimentos, sem as quais suas indústrias simplesmente perdiam muito de sua capacidade produtiva.

Tal situação, aliada à fragilidade das forças armadas reconstruídas por Hitler, foram o real embrião da chamada “blitzkrieg” (termo este nunca utilizado pelos alemães). Para os estrategistas alemães, o país só teria chances se fizesse um ataque com tudo que dispunha simultaneamente para derrotar o inimigo o mais rápido possível. Em 1939, não se tratava de uma estratégia preconcebida, mas de uma necessidade. A vitória rápida era a única alternativa possível, já que o país não estava pronto para uma guerra longa.

A situação era tal que o taque contra a França foi a única cartada possível de Hitler. Em 1939 (o ataque foi adiado para 1940 por motivos adversos), seu regime não tinha mais perspectivas de aumentar seus armamentos e esperar só favorecia aos inimigos. As encomendas feitas pela Inglaterra e pela França aos EUA cresceriam em volume.Um ataque certeiro com todo o poderio era a única chance possível.

2. A incapacidade dos países ocupados em sustentar o esforço de guerra alemão

Em 1941 a Alemanha ocupava a maior parte dos territórios continentais da Europa e os países ocupados forneciam grandes cotas de sua produção industrial e alimentícia para o Reich, além de pesadas taxas de ocupação no valor de bilhões de reichsmarks. Isso sem incluirmos os saques efetuados pelas forças de ocupação alemães e os equipamentos militares. No entanto, nem mesmo estes recursos eram suficientes para que a Alemanha vencesse a guerra. A economia de todos países ocupados entrou em bancarrota e estes também não dispunham de vastas reservas matérias primas mais essenciais para o esforço da guerra, como carvão, ferro e petróleo, por exemplo.

Há muitos entusiastas que afirmam categoricamente que se a Alemanha atacasse somente a União Soviética deixando os países ocidentais de lado, a mesma colheria um espetacular triunfo. Conforme o esclarecido acima, a situação da Alemanha naquela época não permitia tais considerações. Somente da França, os alemães levaram 314 878 rifles, 5017 peças de artilharia, 3,9 milhões de obuses  e 2170 tanques para seu esforço de guerra.

Nem mesmo após a invasão da URSS e exploração de muitos de seus recursos os problemas da falta de matérias primas foram sanados.

3. A Alemanha perdeu a guerra industrial para a URSS

Em 1942 a União Soviética, apesar de uma impressionante queda de 25% na sua produção nacional total, conseguiu superar a Alemanha em praticamente todas as categorias de armamentos, com margens que variavam de 3 para 1 em armas leves e artilharia, 4 para 1 em tanques e de 2 para 1 em aviões. Em certas categorias, os soviéticos superavam os EUA, indiscutível campeão industrial do mundo. Esta superioridade industrial conquistada antes mesmo da ajuda ocidental chegar foi o que permitiu ao Exército Vermelho resistir e contra-atacar posteriormente, selando o destino de Hitler.

É importante destacarmos também as mudanças ocorridas na capacidade de comando dos soviéticos neste período. Para melhor entendimento, recomendamos o livro “Confronto de titãs – Como o Exército Vermelho deteve Hitler“, dos historiadores David M. Glatz e Jonathan House.

Isso contrasta bastante com as narrativas do senso comum, segundo as quais Stálin esteve à ponto de render-se ou que a URSS estaria em seu limite. Nada poderia estar mais distante da realidade.

4. A Alemanha não dispunha da mão de obra suficiente para vencer a guerra

Pode parecer algo sem muita relevância, mas já esclarecemos porque este é um dos maiores problemas que os alemães enfrentaram durante a guerra.

Para cada soldado que o exército dispunha na linha de frente, consumindo recursos em um grande ritmo, era um operário à menos nas fábricas produzindo para a guerra. Para sanar este problema, a Alemanha nazista não só recrutou (em muitos casos, de forma coercitiva), milhões de trabalhadores “livres” dos países ocupados, principalmente da França e da Polônia, como também utilizou-se de métodos bem mais cruéis, tais como a utilização de milhões de judeus e prisioneiros de guerra soviéticos em suas fábricas que eram obrigados a trabalhar até a morte por conta do esforço exigido e da alimentação pobre e insuficiente que recebiam. Não é necessário dizer que mesmo com esta “solução”, o problema da mão de obra persistia, pois os trabalhadores estrangeiros e os escravos moribundos não produziam o mesmo que um trabalhador alemão normal.

5. A superioridade industrial dos aliados era avassaladora

Se anteriormente vimos que em 1942 a Alemanha estava aquém da URSS na produção de armamentos, em 1944 a vantagem da produção aliada sobre a alemã era simplesmente avassaladora. Neste mesmo ano, os alemães produziram 31.100 aviões de combate, enquanto os aliados (EUA, URSS e Inglaterra) mantinham-se na frente com 127.300, destacando-se os EUA com 71.000. Em tanques, foram 18.300 alemães frente aos 54.100 dos aliados, com a URSS respondendo por 29.000 deste total.

Há quem afirme que superioridade material e número não é tudo, mas foi exatamente isso que venceu a guerra. A Alemanha desafiou o poderio de alguma das maiores potências de sua época e perdeu. Os fatos só mostram que tal desfecho era praticamente inevitável.

Livros citados como fontes:

O Preço da Destruição – Adam Tooze

Confronto de titãs – Como o Exército Vermelho deteve Hitler – David M. Glatz e Jonathan House

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